sábado, 6 de maio de 2017

Como maio se tornou o mês de Maria



É curioso saber como maio se tornou o mês de Maria.

Temos, na verdade, mais de um mês mariano:

O mais antigo é o mês de agosto, associado à Solenidade da Dormição de Nossa Senhora, maior festa mariana do rito bizantino;

Outubro é o mês do Rosário, principalmente por obra do Papa Leão XIII;

Setembro é o mês de Nossa Senhora das Dores, promovido pelos Servos de Maria.

Mas o mês de maio não trazia celebrações litúrgicas marianas de destaque, nem devoções de grande alcance. Como ele se tornou o mês de Maria?

Breve histórico

Na Igreja do Ocidente, na Europa, o mês de maio é o do renascimento da natureza após o inverno. As floradas da primavera levaram os povos antigos a realizar festas e homenagens celebrando a vida.

Nos séculos XII e XIII estavam se cristianizando as várias tradições antigas e pagãs, e aos poucos se foi orientando o povo a honrar Santa Maria nesse período de renascimento da natureza.

O primeiro registro a associar o mês de maio a Nossa Senhora foi de Afonso X, o Sábio, rei de Castela e León (1221-1284). Nas suas “Cantigas a Santa Maria”, cantando a abundância de bens que a natureza oferecia, convida a invocar a Virgem Maria para que esse mês seja abundante de bênçãos materiais e espirituais.

Anos depois, o bem-aventurado Henrique Suso, dominicano, dedicava a primavera a Nossa Senhora.

Na França e na Alemanha, foram surgindo iniciativas semelhantes para homenagear a Rainha do Céu nesse mês.

No século XIV, no dia 1º de maio os ourives de Paris ofereciam a Nossa Senhora buquês de plantas enfeitadas com pedras preciosas e fitas.

Maio começou a tomar forma como mês mariano com São Filipe Neri. Durante esse mês, o santo ensinava os jovens a prestar “obséquios” a Maria, enfeitando suas imagens com flores, cantando louvores em sua honra e praticando atos de virtude e mortificação, entre outras práticas. “Havendo chegado as festas de maio e tendo nós ouvido, no dia anterior, muitos seculares começarem a “cantar maio” e festejar as criaturas por eles amadas, resolvemos e quisemos cantar também a santíssima virgem Maria… e achávamos que não devíamos deixar-nos superar pelos seculares.” (Crônica do arquivo de São Domingos)

Em 1677 surgiu uma confraternidade, iniciada pelo Padre A. D. Guinigi, que dedicava o mês de maio à Virgem Maria com exercícios de devoção. Inicialmente se celebrava somente o primeiro dia de maio, depois todos os domingos e por fim todos os dias do mês.

Essas práticas foram evoluindo, propagando-se e se aperfeiçoando com o passar do tempo e o impulso de ordens religiosas. Quando, por volta de 1700, os jesuítas adotaram a devoção mariana no mês de maio, ela se espalhou por toda a Igreja.

O mês de maio e os devotos

Em seu livro póstumo Meditações e devoções, o bem-aventurado Cardeal John Newman descreve bem o sentimento dos fiéis:

“A primeira razão (para celebrarmos Nossa Senhora em maio) é porque é o tempo em que a terra faz surgir a terna folhagem e os verdes pastos, depois do frio e da neve do inverno, da cruel atmosfera, do vento selvagem e das chuvas da primavera…

Porque os dias se tornam longos, o sol nasce cedo e se põe tarde. Porque semelhante alegria e júbilo externo da natureza são os melhores acompanhantes da nossa devoção Àquela que é a Rosa Mística e a Casa de Deus.

Ninguém pode negar que este seja pelo menos o mês da promessa e da esperança. Ainda que o tempo não seja favorável, é o mês que dá início e é prelúdio do verão.

Maio é o mês, se não da consumação, pelo menos da promessa, e não é este o sentido no qual mais propriamente recordamos a Santíssima Virgem Maria, a quem dedicamos o mês?”

Ainda que no hemisfério Sul tenhamos a experiência inversa – maio é quando nos despedimos dos dias quentes e longos e nos preparamos para os rigores do inverno – compreendemos bem essas palavras do Cardeal Newman.

Temos em acréscimo pelo menos duas datas para celebrar Nossa Senhora festivamente em maio: o Dia das Mães, em que recordamos de maneira especial a Mãe de Jesus e nossa, e também o 13 de maio, em que celebramos Nossa Senhora de Fátima.

O mês se encerra atualmente com a celebração litúrgica da Visitação, porém continua sendo costume se fazer nesse dia, ou no último domingo, a Coroação de Nossa Senhora: essa cerimônia, com a participação das crianças em toda sua espontaneidade e inocência, é sempre cheia de emoção filial.



Coroação de Nossa Senhora: parte das celebrações de maio

O mês de maio e os Papas

A prática devocional do mês de maio ganhou uma indulgência parcial com o Papa Pio VII em 1815 e uma indulgência plenária com Pio IX em 1859. Essas indulgências específicas caíram na revisão de 1966.

Pio XII acena vivamente para fiéis que levam imagem peregrina de Fátima

O Papa Pio XII se referiu ao mês de maio em sua grande Encíclica sobre a Sagrada Liturgia:

“…há outros exercícios de piedade que, se bem não pertençam a rigor e de direito à sagrada liturgia, se revestem de particular dignidade e importância, de modo que são tidos por insertos no quadro litúrgico, e gozam de repetidas aprovações e louvores desta Sé Apostólica e dos bispos. Entre esses se devem enumerar as orações que se costuma fazer durante o mês de maio em honra da virgem Mãe de Deus…” (Mediator Dei, 167)

Paulo VI Em Fátima

O Papa Paulo VI escreveu uma curta encíclica em 1965 usando a devoção do mês de Maria como um meio para que se fizessem orações pela paz.

“Na verdade, é um mês em que, nos templos e entre as paredes domésticas, sobe dos corações dos cristãos até Maria a homenagem mais ardente e afetuosa da prece e da veneração. E é também o mês em que mais copiosos e mais abundantes descem até nós, do seu trono, os dons da misericórdia divina (…).

Muito nos agrada e consola este piedoso exercício, tão honroso para a Virgem e tão rico de frutos espirituais para o povo cristão.” (Mense maio)

Em maio de 2002 o Papa João Paulo II destacou a importância da dedicação do mês de maio, dizendo:

João Paulo II e Nossa Senhora de Fátima

“Hoje tem início o mês dedicado a Nossa Senhora e muito querido à piedade popular. Muitas paróquias e famílias, seguindo tradições religiosas já consolidadas, continuam a fazer de maio um mês “mariano”, multiplicando ardorosas iniciativas  litúrgicas, catequéticas  e pastorais!

Que ele seja, em toda a parte, um mês de intensa oração com Maria! Estes são os votos que vos formulo a todos do íntimo do coração, caríssimos Irmãos e Irmãs, recomendando-vos uma vez mais a recitação do santo Rosário quotidianamente. Trata-se de uma oração simples, aparentemente repetitiva, mas mais útil do que nunca para penetrar nos mistérios de Cristo e da sua e nossa Mãe. Ela é, ao mesmo tempo, um modo de rezar que a Igreja sabe que é do agrado da própria Nossa Senhora. Somos convidados a recorrer ao Rosário também nos momentos mais difíceis da nossa peregrinação na terra.” (Audiência Geral, 1º de maio de 2002)

Bibliografia:

Aleteia – Por que maio é o mês de Maria?, por  Patricia Navas González – http://pt.aleteia.org/2015/05/04/por-que-maio-e-o-mes-de-maria/

Catholic Culture – Month of Mary – http://www.catholicculture.org/culture/liturgicalyear/overviews/months/05_1.cfm

Dicionário de Mariologia – dirigido por Stefano de Fiores e Salvatore Meo – Editora Paulus, 1995

May, Mary´s Month, Marian coronation – The Marian Library/International Marian Research Institute, Dayton, Ohio – http://campus.udayton.edu/mary/meditations/crownmed.html
Conteúdo original em:  http://totusmariae.org/blog/igreja/como-o-mes-de-maio-se-tornou-o-mes-de-maria/


Fonte: Correio da Semana
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