segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Carnaval, só com Cristo!



O cristão, que vive na esperança, não pode ser triste.

 Na próxima semana, já antecipado nestes dias, celebraremos o Carnaval. É bom, portanto, fazermos, desde já, uma reflexão sobre a alegria, este dom maravilhoso de Deus que restaura nossas forças, lembrando-nos da dignidade de nossa criação e de nossa redenção.

A tristeza leva-nos às profundezas da terra, a um lugar inóspito, como lamentava Jó, onde não há ordem e habita o eterno horror. (Cf. Jó 10,22)

O coração do homem, do cristão, deve sempre transbordar de alegria pelo reatamento da união entre a humanidade e Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança e pela salvação que nos foi dada em Cristo Jesus.

A alegria e a festa devem ser pessoal e coletiva. Pessoal, enquanto sabemos que Deus nos ama e sempre nos acolhe, mesmo quando deixamos de lhe ser fiéis. Mas também coletiva, enquanto povo santo pela redenção realizada por Cristo.

Já os profetas proclamavam para abrir nosso coração ao júbilo. E mesmo para o povo que jazia na escravidão e fora deportado para longe de sua terra, apontavam a alegria do retorno, porque o Senhor vira a sua aflição e o alimentava na esperança. Isaías clamava: "Rejubila, Jerusalém, e vós todos que a amais. Uni-vos para partilhar do seu júbilo" (Cf. Is. 66,10).

O cristão, que vive na esperança, não pode ser triste. São Francisco de Sales já falava isso: "Um santo triste é um triste santo" condenando àqueles que não se rejubilavam com a graça.

São Paulo, igualmente, concitava os evangelizados à alegria: "Alegrai-vos sempre no Senhor, de novo vos digo alegrai-vos" (Cf. Fl. 4,4).

Os dias de Carnaval deveriam nos conduzir à alegria do corpo e do espírito, pois se fomos criados do limo da terra, temos também em nós insuflado o Espírito de Deus e recebemos este mesmo Espírito pelo qual podemos chamar a Deus de Pai.

Quando o povo hebreu foi reconduzido do cativeiro da Babilônia, o sacerdote Esdras, depois de lhe ter exposto a lei, convida-o à festa: "Hoje é dia consagrado a Javé vosso Deus (...). Não vos entristeçais nem choreis... Ide e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e mandai porções a quem não a preparou, porque hoje é um dia consagrado a nosso Senhor" (Cf. Neem.8,10).

Esse é o espírito que nos deveria animar nos dias de Carnaval: a alegria que se traduz nas festas e danças a que todos são convidados, ricos e pobres, porque nossa salvação está próxima, como confirma São Paulo na complementação do texto acima.

Estes dias não nos deveriam afastar de Deus, com excessos, que deturpam nossa própria natureza e nos levam àqueles extremos aos quais o mesmo Apóstolo Paulo se refere na sua Carta aos Romanos e que atraem a ira de Deus (Cf. Rm. 1,1 e ss).

Infelizmente, o Carnaval se tornou uma festa pagã, na qual o que vale é o luxo e a luxúria, no incitamento ao pecado e no completo esquecimento da miséria que se abate sobre grande parte do povo, até mesmo daqueles que, à falta de opções, só lhes oferecem o "circo".

Os dias de Carnaval deveriam e poderiam ser dias de alegria, de dança e festas, mas também de partilha com os que nada têm, e com aqueles que têm o coração vazio. Repartir o pão sabendo conter os gastos excessivos e repartir a esperança para todos aqueles que, perdida a fé, se entregam aos excessos das bebidas e das drogas e à dissolução moral.

Por esta razão, voltamos a dizer com o Apóstolo: "Alegrai-vos. Mais uma vez vos digo, alegrai-vos". E que a vossa alegria seja completa, extravasando de vossos corações, celebrando nossa completa libertação.


Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora (MG)
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