sábado, 23 de abril de 2011

Vigília Pascal (Homilia)




“Caros filhos, para entendermos o mistério que celebramos, precisamos conhecer suas raízes históricas e religiosas que se encontram no Antigo Testamento.
No Antigo Testamento existem dois significados para a Páscoa. Em Ex12, 26-27, ela é apresentada como a “passagem de Deus”: “é o sacrifício da Páscoa (Pesach) para o Senhor, que passou (Pâsâchti) diante das casas dos filhos de Israel no Egito, quando golpeou o Egito e libertou nossas casas”
 Deus “passa”, “salta”, “poupa” as casas dos israelitas que estavam marcados com o sangue do cordeiro imolado, mas não poupa os primogênitos dos egípcios. Esta explicação da Páscoa tem como protagonista o próprio Deus.No tempo de Jesus esta é a visão que predomina na Palestina. A Páscoa apresenta um forte aspecto ritual e sacrifical. Consiste numa liturgia concreta, que tem como momentos essenciais a imolação do cordeiro no templo, na tarde de 14 de Nissan, e a sua consumação por família no decurso de uma ceia, na noite sucessiva.
Em Dt 16, temos a outra maneira de ver esta festa judaica: a atenção é voltada para a saída do Egito que é vista como a passagem da escravidão para a liberdade. O protagonista passa a ser o homem.
No tempo de Jesus, esta interpretação era predominante no judaísmo da Diáspora. O evento histórico central comemorado era a passagem do povo através do Mar Vermelho. Seu significado alegórico era o da passagem do homem da escravidão à liberdade, do vício à virtude.
Esta dúplice e complementar visão da Páscoa, também influenciou o cristianismo. Alguns padres da Igreja apresentam a Páscoa cristã como a grande imolação de Cristo, a sua Paixão. A morte de Cristo, porém, é vista sobretudo como força de salvação, “morte da morte”. Como dizia Melitão de Sardes: “Graças ao Seu Espírito (de Jesus) que não podia morrer, matou a morte que matava o homem” (Melitão, Sulla Pasqua, 66). Outra tradição cristã viu a páscoa sobretudo como passagem do vício à virtude, dando continuidade à teologia judaica da Diáspora. Nesta perspectiva, toda a vida do cristão e da Igreja é vista como um êxodo, que começa com a fé e termina com a saída deste mundo. A verdadeira páscoa será aquela que celebraremos sem símbolos nem figuras, na pátria beata.
Esta dúplice e complementar visão da Páscoa cristã caminhavam de forma paralelas e, às vezes, até concorrente. Foi preciso a intuição de Sto Agostinho para fazer uma síntese que explicasse melhor o rico significado deste mistério. Ele parte do cap. 13 do Evangelho de João que diz: “Antes da Páscoa, sabendo Jesus que a sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai…” (v. 1). Esta passagem une de forma íntima Paixão e Ressurreição e mostra que é através da Paixão que Cristo chegou à glória da Ressurreição. A Páscoa cristã é uma passagem através da Paixão.
“Paixão e Ressurreição do Senhor: eis a verdadeira Páscoa” (Agostinho, De Cat. Rud. 23, 41; PL 40, 340).
Em Jesus, os dois protagonistas da Páscoa, Deus e o homem, se tornam um só, porque nele a humanidade e a divindade são uma mesma pessoa, autor e destinatário da Salvação se encontram. Mas Jesus não “passa” só. Nós também que somos seu corpo místico, passamos juntamente com nossa cabeça. A nossa passagem se dá na fé (de onde obtemos o perdão dos pecados), na esperança da vida eterna e no sacramento do nosso Batismo. Mas devemos passar também na realidade da vida quotidiana, imitando a sua vida e sobretudo o seu amor. Se não passamos a Deus que não passa, passaremos com o mundo que passa. Páscoa é passar àquilo que não passa.


Escrito por: Pe. Emilio Cesar Porto Cabral
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